A inteligência artificial ficará no meu lugar?

Na internet pululam vídeos e textos informando sobre a maravilha chamada inteligência artificial, com a ideia de que ela fará o trabalho pela pessoa, substituindo o trabalhador no dia a dia. Pelo que alardeiam, ninguém será poupado dos efeitos inevitáveis desse progresso tecnológico. Desta forma, segundo os futurólogos, assim como ocorreu com a Revolução Industrial do Século XVIII, que eliminou vários postos de trabalho, especialmente dos trabalhadores braçais, agora, no Século XXI, acontecerá o mesmo, só que com os profissionais mais qualificados. Será isso mesmo? 

Uma das ideias ventiladas é que basta um bom modelo de inteligência artificial para se fazer um trabalho que antes dependia de um bom técnico, isto é, que antes exigia o conhecimento de um profissional que dedicou parte da sua vida aos estudos em um determinado ramo do conhecimento humano. Afirmam que você não precisará mais ir ao médico, pois uma inteligência artificial treinada fará o diagnóstico e prescreverá o tratamento. Preconizam que não será mais necessária a assistência de um advogado experiente porque a I.A. fará todo o trabalho. E isso tem assustado muita gente.

Até que ponto essas propagandas futuristas se concretizarão? Não entrarei no mérito se os modelos de inteligência artificial, notadamente os modelos de I.A. generativa, são de fato inteligentes, pois não é ponto do presente texto. Há um ponto importante que não é dito e que as pessoas, pelo menos a sua grande maioria, não têm percebido. A inteligência artificial é um instrumento. E, instrumento, por si mesmo, sem alguém capacitado para operá-lo, tem pouca serventia ou sua eficácia é limitada. Isso sem falar na possibilidade de acidentes pelo seu uso indevido.

Posso adquirir os melhores pincéis e tintas disponíveis no mercado, porém, sem o conhecimento técnico e treinamento adequados (isso sem mencionar o talento artístico), não conseguirei pintar como Michelângelo. O simples uso dos instrumentos de pintura não me capacitam para criar uma obra prima, no máximo uns rabiscos toscos em uma tela. O mesmo acontece com os modelos de inteligência artificial com capacidade generativa, que criam textos, imagens, vídeos, áudios e códigos.

Quando o Chat GPT ingressou no mercado, em novembro de 2022, fiz alguns testes voltados para a prática da advocacia. No início, percebi imediatamente algumas das suas limitações, entre elas a pouca capacidade de memória dos contextos e a frequência de entrega de respostas tecnicamente erradas, às quais os espertos no assunto chamam de alucinação. Os modelos generativos foram criados para entregar uma resposta, pouco importando para eles se é correta ou errada. É inegável que os modelos foram aprimorados daquela época para a atual, com melhora na janela de contexto, entre outros pontos. 

   Não obstante as melhorias incrementais ao longo do tempo, o que sustento como ponto principal é que a I.A., como instrumento que é, reflete o nível de conhecimento do seu usuário, não sendo um substituto do profissional tecnicamente capacitado na sua área de conhecimento, daquele profissional que tem raciocínio estratégico, que cria e inova. Será um substituto apenas daquele profissional que desempenha trabalhos meramente repetitivos, cujo fluxo de trabalho pode ser automatizado pela I.A. ou por outra tecnologia. Automatização de fluxos de trabalho não é algo novo. 

Tanto isso é verdade que há várias notícias de advogados punidos pelo uso imprudente da I.A., que protocolam petições sem a devida revisão, apresentando em seus textos jurisprudências que não existem, que foram criadas pela inteligência artificial, pois, conforme acima mencionado, ela foi criada para entregar uma resposta, sem compromisso com a verdade técnica.

Na minha área, por exemplo, o advogado meramente utilizador de modelos de petição encontrados na internet será substituído pela I.A. Porém, aquele que pensa o problema apresentado pelo cliente de forma inteligente e não mecânica, que constrói a estratégia para cada caso, não será substituído. Ele utilizará a I.A. como instrumento para potencializar a sua atividade criativa, ganhando produtividade e obtendo cenários preditivos que o auxiliem na tomada de decisão ao longo do processo judicial, ou na negociação extrajudicial.

O profissional que queira se manter relevante no mercado de trabalho deve aprender a utilizar a I.A. no seu campo de atuação, pois quem não agrega à sua atividade novas tecnologias, acaba ficando obsoleto e fora do mercado.

Em suma, podem ficar tranquilos. A inteligência artificial não substituirá o profissional tecnicamente qualificado em sua área. Ao contrário, será um instrumento que, bem utilizado, o ajudará a se manter relevante no mercado de trabalho e com ganho de produtividade. Porém, o alerta fica para os profissionais que não estudam e se aperfeiçoam continuamente, que utilizarão a I.A. para “trabalhar” no lugar deles. Esses estarão fadados ao insucesso e serão substituídos pela tecnologia, pois tarefas repetitivas, sem o uso da inteligência humana como motor de criação, serão executadas cada vez mais por sistemas automatizados.  

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