Nos últimos dias um questionamento tem sido recorrente nos meus pensamentos: o que realmente caracteriza uma cidade? Há cidades que receberam epítetos mundialmente famosos, como Roma, a cidade eterna, Paris, a cidade luz e Recife, a Veneza brasileira. Isso se deve ao seu urbanismo? À arquitetura dos seus prédios? Em parte, sim, porém suponho que isso não explica tudo.
Penso que aquilo que efetivamente caracteriza uma cidade são as pessoas que ali residem e trabalham, com os seus respectivos estilos de vida, personalidades e a interação entre elas. Além disso, mesmo sendo materialmente uma só cidade, parece que cada um tem a sua própria urbe através das suas vivências, isto é, cada um enxerga e vivencia uma pólis única, que costuma ser diferente da percebida pelo outro.
E essa cidade percebida de forma específica por cada qual vai se transformando ao longo do tempo, não só porque o observador muda, mas também porque as outras pessoas se transformam e algumas deixam a cidade, quer porque se mudam para outra, quer porque falecem.
E, nessa dinâmica da vida, a cidade vai se transformando; em alguns aspectos para melhor, em outros para pior. Porém, o fato é que se transforma ao longo do tempo, mesmo que, excepcionalmente, os prédios e ruas permaneçam os mesmos.
Talvez não haja nada de científico no que apresentei, mas isso não importa. Importa para mim, nesses pensamentos, o que percebo através da revisitação à minha memória quando comparo com a observação visual do presente da urbe. E talvez isso possa ser aplicado a toda e qualquer cidade por qualquer pessoa que nela reside ou tenha vivido.
E qual a cidade que estou percebendo no presente texto? Trata-se de João Pessoa, capital do Estado da Paraíba, cidade na qual nasci e resido até hoje. Outro dia precisei ir ao centro da cidade, mais precisamente na região circunvizinha à lagoa, situada no parque Solon de Lucena. Da lagoa, caminhei pela Avenida Padre Meira e entrei à esquerda na Rua Treze de Maio. Continuei a caminhada pela Rua Treze de Maio, atravessei a Avenida Dom Pedro II e a Rua Marechal Almeida Barreto, que cortam a Treze de Maio, até chegar à esquina dessa com a Rua Professora Alice Azevedo. Nessa esquina, mais precisamente do lado esquerdo da rua, onde hoje funciona um escritório de advocacia, residia minha tia avó paterna Geny Benevides. Era uma casa com um amplo terraço frontal gradeado, um bom quintal arborizado com uma garagem nos fundos, onde a sua irmã, a minha tia avó Necy Benevides guardava o seu fusca. Tia Necy morava a poucos metros dali, na rua Professora Alice Azevedo. A casa me trouxe boas lembranças, porém já não é mais a mesma. Não falo porque foi reformada, mas sim porque a alma da casa, que são as pessoas que nela residiam, não estavam mais ali.
Continuei a caminhada dobrando à direita na Rua Professora Alice Azevedo, parando a pouco metros diante da casa que um dia foi a residência da tia avó já mencionada, Necy. A fachada estava bem descuidada, nem parecia que ali ainda reside alguém. Continuei a caminhada, pegando à direita na Rua Rodrigues de Aquino, indo até a praça João Pessoa. Da praça João Pessoa, a contornei em direção à Rua Duque de Caxias. Lamentável o estado em que se encontra atualmente tal rua, com muitos buracos, fachadas das lojas degradadas e muitos vendedores ambulantes no trecho sobre o viaduto Damásio Franca, que quase impedem a passagem das pessoas. Continuei a caminhada até próximo da uma antiga loja de instrumentos musicais, de nome “O Tamborim de Ouro”. Praticamente vizinha à loja morava outro tio avô, José Benevides. Confesso que não consegui identificar a casa, pois vários prédios naquele trecho da Duque de Caxias estão desprezados, praticamente em ruínas. A própria Rua Duque de Caxias parece estar abandonada, em uma contínua e lenta morte.
De lá, retornei pela Duque de Caxias até a Rua das Trincheiras, passando pela Igreja de Lourdes, atravessando a Avenida João Machado, e, mais adiante, entrando à esquerda na Rua Irineu Joffily. Nessa rua costumava ir a dois endereços. Ali residiam, do lado direito da rua, Dona Carmélia e as suas meninas, e, um pouco mais adiante, do lado oposto, tia Moreninha e tio Edson Benevides.
Parei na frente da casa de Dona Carmélia Coelho. Ali costumava ir aos domingos pela manhã, com meus avós paternos, visitar Dona Carmélia, Ritinha e Helena. O auge da visita era quando elas serviam os quitutes, que consistiam em bolos, doces e biscoitos produzidos por elas. Eram excelentes.
Na casa de tia Moreninha e de tio Edson também éramos muito bem recebidos. Lembro-me de vários natais passados ali com a família, na sala do sobrado. Tradição essa que foi perdida após a morte dos mais antigos, pois eram eles quem aglutinavam os familiares.
De lá, peguei à esquerda na rua Rodrigues de Aquino e depois à direita na Avenida João Machado, caminhando até a esquina da Rua Alberto de Brito, na qual entrei e fui até a Rua Gervásio Bonavides. Essa rua é curta e não tem saída. Nessa rua parei na frente da casa de tio Luiz Coelho e tia Marluce. A casa continua com a mesma fachada e jardim em ótimo estado de conservação. Apesar da cordialidade de tio Luiz, não é mais a mesma depois da morte repentina de tia Marluce.
A João Pessoa de hoje, pelo menos para mim, não é mais a mesma, pois algumas pessoas que me eram caras já não existem mais, sabendo que em alguns anos também eu, como mais um personagem dessa cidade litorânea, não estarei mais nela. Talvez alguém venha a sentir falta, pelo menos esse é o desejo egocêntrico que tendemos a ter enquanto seres humanos.
Espero que essa caminhada não lhe tenha cansado em demasia. Porém, tal roteiro foi necessário ser descrito. Foi esse périplo urbano que me fez refletir sobre como eu enxergava outrora e como hoje vejo a cidade de João Pessoa após todos esses anos. E você, caro leitor, também já teve ou tem essa mesma impressão em relação à sua cidade[1]?
[1] Pode ser a sua cidade natal ou aquela na qual passou parte representativa da sua vida.
Texto escrito em 04/01/2026.

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